Tenha pena de mim
Por Thalis Neckel Miguel
Eu sou um cara que não tem problema com nostalgia. Guardo minhas recordações de diversos momentos da minha vida – infância, adolescência, primeiros anos de maioridade – na cabeça, em fotos, textos, livros, músicas, programas de TV ou qualquer bobagem. Mas há uma coisa da qual não abro mão desde que me conheço por gente: se estiver passando Chaves ou Chapolin na televisão, paro tudo que estiver fazendo e sento (ou deito) no sofá para assistir.
Minha infância foi marcada pela arte do Chespirito e suas histórias, que iam de temas tão comuns como duas crianças jogando bola no pátio, passando por aventuras bizarras de um super-herói atrapalhado e momentos instigantes sobre a personalidade e a situação de vida de cada personagem que renderiam debates acalorados, seja no meio acadêmico, em um programa de televisão ou numa roda de amigos no bar.
Conheci a Graforréia Xilarmônica da mesma forma como muitas outras pessoas: pelas músicas mais famosas, como “Amigo Punk”, “Nunca Diga”, “Você Foi Embora” e “Eu” (primeiro na versão do Pato Fu, depois dos graforréicos). Sou um grande admirador da música deles, paga-pau mesmo, no sentido positivo, gosto muito das músicas, das letras e do clima descontraído que a banda passa, sem soar muito vulgar e nem muito pomposo.
A primeira vez que escutei a música “Chapolin” foi num show da Graforréia, não me lembro o ano, mas foi no Opinião. Identifiquei-me imediatamente com a música. Lembrei de quando estava em casa entediado, ligava a televisão e de repente tava passando Chapolin no SBT. Quem é fã, sabe. Durante todos esses anos, Silvio Santos tirou e pôs de volta no ar Chaves e Chapolin milhares de vezes. E, frequentemente, altera os horários de exibição do programa sem prévio aviso. Então, era normal tu ligar a TV num dia às 13:15 e estar passando as aventuras do vermelhinho, e no outro dia passar Blossom ou Três é Demais no seu lugar. E lá pelas 18:30, tu passava no SBT e tava dando Chaves. Sempre assim. Os fãs do Chespirito sempre tiveram que fazer uma certa vigília pra saber que hora passaria o programa, sendo que nem sempre passavam os dois. Recordo de várias vezes ligar ou receber uma ligação do meu amigo Davi Pacote avisando “ó, vai começar um inédito do Chapo agora”. E depois ligar de novo “bah, genial esse episódio!”. Às vezes o seu Abravanel deixa o Chaves no ar e não passa o Chapolin, ou vice-versa. Com o advento da internet, Orkut, MSN, blogs e diversos sites sobre o seriado, a comunicação entre os admiradores ficou mais fácil.
Tinha uma época de ouro nos anos 90, que passava na hora do almoço, em sequência: Blossom, Chaves e Chapolin. Obviamente eu queria ver todos, mas vira e mexe meu pai não deixava, pois queria ver o Jornal do Almoço e/ou o Globo Esporte, justo naqueles tempos em que o nosso Internacional não estava em momento muito bom. Mesmo sendo coloradaço, não entendia porque ele queria ver notícias ruins do nosso time. Quando ele abria mão, assistíamos todos juntos ao SBT: meu pai, minha mãe, eu e meu irmão mais velho. E todo mundo dava risada junto, principalmente do Joey Russo (“uou!”) e das frases clássicas do Chapolin (“sim, eu vou”, “todos os meus movimentos são friamente calculados”). Ao ouvir os versos “Tenha pena de mim / Só quero ver o Chapolin”, pensei: “bah, os caras devem passado pela mesma situação que eu”.
Adoro o Chaves, mas o Chapolin é ainda mais especial pra mim, por três motivos:
1 – Cada episódio é uma história diferente com personagens diferentes;
2 – O fato de o SBT ter tirado o programa muitas vezes do ar fez com que a saudade fosse maior – Chaves é aquela coisa: tu podes ficar um tempão sem ver, mas sabe que tá passando todo dia, e provavelmente quando tu fores ver, saberás todas as falas de cor;
3 – Ele é o Chapolin Colorado! Genial!
Os riffs de “Chapolin” são absurdamente maravilhosos. Alexandre Birck, Carlo Pianta e Frank Jorge são extremamente competentes no que fazem. A Graforréia tem uma coisa muito maluca que durante algum tempo eu não conseguia entender como eles faziam aquilo, e um dia, como aluno do Pianta no IPA, em uma aula de Harmonia, tive a oportunidade de perguntar sobre os diversos momentos nos shows e nos discos deles, em que a massa sonora parecia extremamente bagunçada e ao mesmo tempo havia uma coesão ali, dava pra ver que os três são entrosados, apesar de tudo ali parecer muito caótico. Ele me respondeu que nesses momentos, ele estava solando a guitarra dele em uma escala, o Frank fazia suas linhas de baixo em outra escala, e o Alemão fazia na bateria aquilo que lhe dava na telha. E ainda assim, todos ali sabiam muito bem o que estavam fazendo.
É mais ou menos o que acontece na maioria das letras deles, estas compostas quase sempre pela parceria Frank Jorge / Marcelo Birck. A história começa num assunto, daqui a pouco vai do nada pra outra coisa, e lá pelas tantas tudo pode acontecer: a junção dos dois assuntos, a volta pra um deles ou o surgimento de um terceiro assunto. É incrível como eles conseguem preencher uma música com palavras tão inusitadas, como em “Iluminados Monstros do Amor” (“Mosquitos verdes vem dizer amém / Drosófilas caladas pelo sol / Não sabem nem dançar o charleston / Vivem cansadas a voar”), e em uma música como “Chapolin” cantar uma rima tão simples, mas tão bacana: “Quando de repente para minha surpresa / Vejo na minha frente aquela beleza”.
Agora o Cartoon Network passa Chaves e Chapolin em sequencia, à noite. Sempre que posso, assisto. E se alguém disser pra mudar de canal ou algo do tipo, já tenho a resposta na ponta da língua: “Tenha pena de mim, só quero ver o Chapolin!”
Graforréia Xilarmônica
“Chapolin”
Composição: Marcelo Birck / Frank Jorge
Disco: Álbum Homem Branco, 1998
Estava em casa sem ter o que fazer
Liguei o televisor
Liguei o televisor
Canal 5 SBT
Quando de repente para a minha surpresa
Vejo na minha frente aquela beleza
Tenha pena de mim
Só quero ver o Chapolin
Tenha pena de mim
Só quero ver o Chapolin
Só quero ver o Chapolin
Tenha pena de mim
Só quero ver o Chapolin
Não contavam
Com a minha astúcia
Foi sem querer querendo
Não priemos cânico
Com a minha astúcia
Foi sem querer querendo
Não priemos cânico
Tenha pena de mim
Só quero ver o Rin-Tin-Tin
Tenha pena de mim
Só quero ver o Rin-Tin-Tin
Só quero ver o Rin-Tin-Tin
Tenha pena de mim
Só quero ver o Rin-Tin-Tin
Cabo Rusty, Chefe O'Hara
Almirante Nelson, Comissário Gordon
Dr. Smith, robô, robô, robô
Sargento Garcia, Dom Diego De La Vega
Almirante Nelson, Comissário Gordon
Dr. Smith, robô, robô, robô
Sargento Garcia, Dom Diego De La Vega
Mas eu estava em casa sem ter o que fazer
Liguei o televisor
Liguei o televisor
RBS TV
Quando de repente para a minha surpresa
Vejo na minha frente aquela beleza
Vídeo ao vivo da música "Chapolin": http://www.youtube.com/watch?v=O27CQXKMlvU
Uma das milhares de cenas geniais do grande Chespirito, interpretando o heroi Chapolin Colorado: http://www.youtube.com/watch?v=PFeC5AG0dfk
Feito o carreto, gurizada! Até a próxima!
Abraços!
Thalisustenido

