Boa noite a todos (ou bom dia, ou boa tarde, depende do momento em que você lê isto aqui)!
Semana passada participei, como voluntário, de uma atividade especial comemorativa ao Dia das Crianças, no Presídio Feminino Madre Pelletier, aqui em Porto Alegre. Um grupo numeroso de detentas lá tem filho ou está para ter. Em função disso, há um espaço no presídio onde as mães cuidam de seus filhos até uma certa idade. Se não me engano, até mais ou menos 2 anos, quando a criança tem que deixar o convívio com a mãe e ser cuidada por algum familiar fora da cadeia ou morar em um abrigo, com a possibilidade de adoção. É uma situação bastante delicada, que dá margem para uma discussão muito importante sobre maternidade na prisão e as leis que envolvem este tema.
Realizei lá uma atividade de musicalização para bebês. Segue abaixo parte do e-mail com o relato que enviei à minha professora Patrícia Kebach (FEEVALE e FACCAT), que foi quem indicou meu nome para a professora Maria da Graça Horn (UNIRITTER) que realiza um belo trabalho com um projeto de extensão no presídio.
“Oi, Paty! Pois então, foi uma experiência e tanto. Eram cerca de 15 mães, algumas delas ainda com os filhos na barriga. Os bebês tinham todos menos de um ano. O espaço que eles tem lá pras mães ficarem com os filhos é muito bacana. Criaram um ambiente bonito, numa sala espaçosa com brinquedos, livros, tapete, boa parte do material foi doada por uma creche que tinha ali perto e fechou.
Realizei uma atividade com elas semelhante ao que costumamos fazer nas aulas de musicalização para bebês lá na Estação Musical. Cantamos boas-vindas para os bebês, mostrei a eles algumas figuras do livro "Orquestra Tin-Tim Por Tin-Tim", as mães imitaram alguns instrumentos falando ("Oi, eu sou o violino e meu som é beeem fininho"), escutamos alguns instrumentos no cd, foi um momento muito interessante no qual pude notar as diferenças entre as mães no que se refere à forma de falar com os filhos. Algumas se entregam totalmente àquele momento com os filhos, brincam, se soltam e interagem com eles; outras apresentam uma certa resistência em se comunicar com os bebês. Conversei com algumas pessoas sobre isso nos dias que se passaram. Cada uma tem uma opinião. Enfim...exploramos o som dos copinhos de plástico (aqueles que eu levo pra lá e pra cá comigo) e de um pedaço de plástico-bolha. Chamei a atenção de todas para que valorizassem os sons que podemos ouvir ao nosso redor e os que podemos produzir, e buscar compartilhar isto com os filhos, o que inclui também a fala: lhes disse para sempre tentarem dizer cada palavra da maneira mais clara o possível, para ajudar os bebês a desenvolver as palavras. Toda essa exploração dos sons, tocar os copos todos juntos, trabalhar o ritmo, a fala, foi feito cada uma de um jeito. Alguns bebês que já eram maiores fizeram tudo por conta própria, com a mãe apenas dando um auxílio - mas sem interferir diretamente, disse isso também, que não é necessário que elas peguem a mão deles para mostrar como se faz um movimento. Com outros bebês mais novos - alguns até dormiam no colo das mães - trabalhamos a audição e as imagens, com as mães esfregando o plástico-bolha, tocando os copinhos, cantando e falando para os filhos. As mães grávidas fizeram o mesmo em direção à barriga - e enfatizei que elas também podem trabalhar todas estas coisas com os filhos ainda na barriga.
Para finalizar, cantamos algumas músicas infantis e a música de despedida. Conversei com as mães e aconselhei-lhes a buscarem essa relação próxima com os filhos, serem afetivas com eles. Que cantem, que mostrem os sons e imagens do mundo, brinquem com eles, que socializem com os outros bebês, que não tenham medo do choro, pois é ainda uma das poucas formas que eles têm de comunicação. Enfim, foi um momento muito especial. Pelo que me disseram, a maioria das presas ali foram pegas no tráfico ou em algum outro crime que geralmente envolvia algum homem - salvo algumas exceções. A desilusão e rancor com o mundo, sentimentos muito comuns dentro da cadeia, podem ser deixados de lado quando se há uma nova razão para viver. A responsabilidade e a felicidade de cuidar de um filho parecem renovar aquele lugar. Provavelmente, a ala das mães é o lugar mais alegre daquele presídio. Talvez por isso algumas mães tentem não se aproximar tanto dos filhos, comentaram comigo esses dias. Por saber que em breve terão que se separar (por volta dos 2 anos se não me engano) e que será um momento muito triste, tentam não se envolver muito. Espero que todas ali consigam buscar essa proximidade e permitir serem mães, amando e criando seus filhos da melhor maneira possível, mesmo que não possam acompanhar toda a infância de suas crianças.”
Realizei uma atividade com elas semelhante ao que costumamos fazer nas aulas de musicalização para bebês lá na Estação Musical. Cantamos boas-vindas para os bebês, mostrei a eles algumas figuras do livro "Orquestra Tin-Tim Por Tin-Tim", as mães imitaram alguns instrumentos falando ("Oi, eu sou o violino e meu som é beeem fininho"), escutamos alguns instrumentos no cd, foi um momento muito interessante no qual pude notar as diferenças entre as mães no que se refere à forma de falar com os filhos. Algumas se entregam totalmente àquele momento com os filhos, brincam, se soltam e interagem com eles; outras apresentam uma certa resistência em se comunicar com os bebês. Conversei com algumas pessoas sobre isso nos dias que se passaram. Cada uma tem uma opinião. Enfim...exploramos o som dos copinhos de plástico (aqueles que eu levo pra lá e pra cá comigo) e de um pedaço de plástico-bolha. Chamei a atenção de todas para que valorizassem os sons que podemos ouvir ao nosso redor e os que podemos produzir, e buscar compartilhar isto com os filhos, o que inclui também a fala: lhes disse para sempre tentarem dizer cada palavra da maneira mais clara o possível, para ajudar os bebês a desenvolver as palavras. Toda essa exploração dos sons, tocar os copos todos juntos, trabalhar o ritmo, a fala, foi feito cada uma de um jeito. Alguns bebês que já eram maiores fizeram tudo por conta própria, com a mãe apenas dando um auxílio - mas sem interferir diretamente, disse isso também, que não é necessário que elas peguem a mão deles para mostrar como se faz um movimento. Com outros bebês mais novos - alguns até dormiam no colo das mães - trabalhamos a audição e as imagens, com as mães esfregando o plástico-bolha, tocando os copinhos, cantando e falando para os filhos. As mães grávidas fizeram o mesmo em direção à barriga - e enfatizei que elas também podem trabalhar todas estas coisas com os filhos ainda na barriga.
Para finalizar, cantamos algumas músicas infantis e a música de despedida. Conversei com as mães e aconselhei-lhes a buscarem essa relação próxima com os filhos, serem afetivas com eles. Que cantem, que mostrem os sons e imagens do mundo, brinquem com eles, que socializem com os outros bebês, que não tenham medo do choro, pois é ainda uma das poucas formas que eles têm de comunicação. Enfim, foi um momento muito especial. Pelo que me disseram, a maioria das presas ali foram pegas no tráfico ou em algum outro crime que geralmente envolvia algum homem - salvo algumas exceções. A desilusão e rancor com o mundo, sentimentos muito comuns dentro da cadeia, podem ser deixados de lado quando se há uma nova razão para viver. A responsabilidade e a felicidade de cuidar de um filho parecem renovar aquele lugar. Provavelmente, a ala das mães é o lugar mais alegre daquele presídio. Talvez por isso algumas mães tentem não se aproximar tanto dos filhos, comentaram comigo esses dias. Por saber que em breve terão que se separar (por volta dos 2 anos se não me engano) e que será um momento muito triste, tentam não se envolver muito. Espero que todas ali consigam buscar essa proximidade e permitir serem mães, amando e criando seus filhos da melhor maneira possível, mesmo que não possam acompanhar toda a infância de suas crianças.”
Outra coisa, a sensação que tive foi de que nem estava em um presídio, de tão aconchegante e afetivo que estava aquele lugar. Com certeza não deve ser fácil a vida no presídio, quem está lá está pagando por um erro cometido no passado. Todo mundo tem direito a uma segunda chance. Que essas mulheres consigam encontrar um norte em suas vidas. Não tenho filho, mas o trabalho que venho realizando com crianças desde 2007 faz com que eu consiga compreender um pouco mais o comportamento humano na sua essência, lá onde começa tudo: na infância.
Falando em filhos, nos últimos tempos tenho reencontrado velhas amizades da época da escola. Quase todo mundo ta casado, com filho, e fico pensando em como a gente sempre esteve tentando equilibrar nossos objetivos com as obrigações e surpresas que a vida nos traz. O caminho que escolhi não é o mais fácil. Músico e professor são duas profissões deveras sofridas no que diz respeito à (pouca) valorização e as constantes dificuldades, mas ao mesmo tempo são profissões extremamente gratificantes quando estamos no meio do processo que é quase sempre divertido e excitante.
O recado de hoje (coisas legais pra pensar e fazer – e não deixar pra depois) então é o seguinte:
IR ATRÁS DAQUILO QUE SE QUER, PENSAR BEM ANTES DE FAZER ALGO PARA NÃO SE ARREPENDER DEPOIS (MAS NÃO PENSAR DEMAIS PRA NÃO FUNDIR A CUCA), RESPEITAR AS PESSOAS E MANTER AS AMIZADES.
Abraços!
Thalisustenido
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